Lá se pensam, cá se fazem.

Agricultura regenerativa em Portugal: 5 projetos que combinam solo saudável e rentabilidade

15 Setembro 2026

Há quem ache que falar de agricultura regenerativa em Portugal é ainda uma conversa de futuro, uma tendência importada que só faz sentido em países com mais tradição em agricultura biológica. A verdade é quase o oposto: Portugal tem hoje alguns dos exemplos mais concretos e mensuráveis da Europa de que é possível regenerar solos degradados, aumentar a biodiversidade e, ao mesmo tempo, manter — ou até melhorar — a rentabilidade das explorações. Do norte de Santo Tirso ao sequeiro alentejano de Mértola, há quintas e herdades a provar que não é preciso escolher entre o ambiente e a economia.

O que é a agricultura regenerativa e porque está a ganhar terreno

A agricultura regenerativa não é uma certificação, nem uma marca, nem um manual fechado de regras. É um conjunto de princípios e práticas que tem como objetivo central melhorar a saúde do solo, aumentar a biodiversidade, melhorar o ciclo da água e sequestrar carbono — tudo isso sem sacrificar a produtividade agrícola. Ao contrário da agricultura convencional, que se foca em extrair do solo, e da agricultura biológica, que procura não danificar, a regenerativa vai mais longe: procura deixar o solo em melhor estado do que o encontrou.

Em Portugal, este conceito tem uma ressonância particular. O país perdeu solo fértil a um ritmo alarmante nas últimas décadas — a erosão hídrica, o abandono rural, as monoculturas intensivas e as práticas de lavoura profunda reduziram drasticamente o teor de matéria orgânica dos solos agrícolas. Em muitas regiões do sul, o teor de matéria orgânica andava abaixo de 1%, quando o ideal para um solo saudável seria pelo menos 3 a 5%. Se a isto somarmos a desertificação que ameaça o Alentejo e o Algarve, a pressão sobre os recursos hídricos e as alterações climáticas que tornam cada vez mais imprevisíveis as colheitas, percebe-se porque é que a agricultura regenerativa deixou de ser uma curiosidade para se tornar uma urgência.

Monte Silveira bio: do tabaco convencional à regeneração de 1.000 hectares

João Valente é a segunda geração a gerir a Herdade Monte Silveira, em Idanha-a-Nova, na Beira Baixa. Durante anos, a exploração viveu do tabaco, com pesticidas, herbicidas e lavoura convencional. Quando os subsídios do tabaco acabaram em 1999, João tomou a primeira decisão radical: converter a quinta à produção biológica. O resultado foi positivo, mas insuficiente. Foi uma viagem à Austrália que lhe abriu os olhos para a agricultura regenerativa e mudou tudo o que fazia.

Hoje, Monte Silveira estende-se por cerca de 1.000 hectares e é a primeira exploração em larga escala na Europa a obter a Regenerative Organic Certification. João aumentou o teor de matéria orgânica do solo de 0,7% para mais de 5%, plantou 8.000 sobreiros usando o esquema de keyline para gestão de água, integrou pastoreio rotacional com quatro espécies de animais — porcos pretos alentejanos, ovelhas, cabras e vacas — e abandonou definitivamente a monocultura. O sistema Montado, que cobre quase 60% da propriedade, é a espinha dorsal de toda a operação: as árvores dão bolota, sombra e matéria orgânica; os animais fertilizam e controlam a vegetação; e o solo retém cada vez mais água e carbono.

A rentabilidade não ficou à espera. João subiu na cadeia de valor, criando produtos de marca próprios em vez de vender commodities a granel, e beneficiou de créditos de carbono através do programa Carbon+ da Climate Farmers. As margens por hectare são hoje superiores às do tempo em que produzia tabaco — um resultado que, há 20 anos, pareceria impossível naquela terra seca e empobrecida.

Herdade de São Luís — Porcus Natura: regeneração no coração do Alentejo

Na Herdade de São Luís, perto de Montemor-o-Novo, Francisco Alves gere 700 hectares com apenas duas pessoas e uma convicção simples: o solo é a base de tudo o resto. Há cinco anos, depois de uma visita de estudo e de uma masterclass com Joel Salatin e Darren Doherty, Francisco transformou a gestão da propriedade e adotou um modelo de pastoreio regenerativo inspirado no Montado tradicional.

O que antes era uma exploração com vacas e porcos tornou-se um sistema multiespécie com 250 vacas, 120 porcas, 50 ovelhas e 70 cabras. A diversidade não é acidental: cada espécie tem um papel no ciclode de nutrientes, no controlo de vegetação e na fertilização do solo. As vacas movem-se diariamente para parcelas diferentes; as ovelhas, cabras e porcos seguem nas mesmas pastagens ou entram depois, aproveitando o que as vacas deixaram. Mais de 9.000 árvores foram plantadas em parceria com a Life Terra, criando uma fonte adicional de alimento para os animais e aumentando a biodiversidade do ecossistema.

O resultado traduz-se em números concretos: mais pastagem por hectare, maior auto-suficiência em alimento para os animais, menos necessidade de produtos anti-parasitários (que destroem a microbiologia do solo) e uma exploração certificada como biológica que premium de mercado. Francisco é claro quando diz que o biológico por si só não garante a regeneração do solo — é preciso saber pastorear, saber descansar a terra e saber observar.

Terra Sintrópica: agricultura sintrópica contra a desertificação em Mértola

Mértola é um dos pontos de Portugal mais vulneráveis à desertificação. Os anos de seca sucessivos, o êxodo rural e a degradação dos solos transformaram uma região outrora produtiva num cenário quase de semi-árido. Foi precisamente aqui que Marta Cortegano fundou a Terra Sintrópica em 2018, uma iniciativa que combina agricultura sintrópica, redes alimentares locais e empoderamento comunitário.

A agricultura sintrópica, desenvolvida pelo suíço-brasileiro Ernst Götsch, baseia-se em imitar os processos naturais de uma floresta: máxima diversidade de espécies, diferentes estratos de plantas, constante devolução de biomassa ao solo e fotossíntese permanente. Na Horta da Malhadinha, a 20 minutos de Mértola, António Coelho aplica estes princípios num solo que todos diziam ser infértil. O resultado: cebolinhas, batatas, saladas, ervas aromáticas, pêssegos, damascos e romãs a crescer em pleno vigor, sem qualquer fertilizante sintético.

A Terra Sintrópica vai muito para além da quinta. Criou uma rede alimentar local que liga agricultores, cantinas escolares, lojas e restaurantes do concelho. Montou um viveiro regenerativo para garantir sementes e plantas adaptadas ao clima semi-árido. Recebe voluntários de todo o mundo que aprendem o modelo e o replicam nas suas regiões de origem. Em abril de 2026, Mértola foi a sede do segundo encontro anual da Rede Ibérica de Territórios Regenerativos, uma coligação de iniciativas de regeneração de paisagem que liga Espanha e Portugal.

Herdade dos Coelheiros: vinhos, nozes e regeneração num mosaico de 800 hectares

Na Igrejinha, perto de Arraiolos, a Herdade dos Coelheiros tem 500 anos de história e 800 hectares que reproduzem o modelo clássico de uma herdade alentejana: vinha, montado, pomar e pastagens num mosaico de culturas que se protegem umas às outras. A adaptação à agricultura regenerativa começou em 2015, com a introdução de novas castas de uva mais adaptadas ao clima, a redução drástica da produção, a regeneração da área de montado e a eliminação total de herbicidas e inseticidas.

Hoje, a propriedade tem 53 hectares de vinha em 38 parcelas que priorizam castas autóctones, 40 hectares de pomar de nogueiras e uma vasta área de montado onde pastam livremente ovelhas, veados e gamos. A gestão é assumidamente biodinâmica, biológica e holística: os solos graníticos, os cultivos diversificados e uma rede de ribeiros criam condições naturais ideais para a vitivinicultura de baixo impacto. O resultado são vinhos reconhecidos pela sua autenticidade e pela relação direta entre o terroir e o copo.

O modelo dos Coelheiros é interessante porque demonstra que a regeneração não é uma ruptura com a tradição, mas antes um aprofundamento dela. A herdade preserva o mosaico alentejano de há 100 anos — vinha, montado, pomar — e intensifica as práticas que já estavam na base do seu equilíbrio: a biodiversidade como aliada, a diversidade de culturas como proteção, e o solo como ativo principal.

Quinta da Manguela: agrofloresta de sucessão no norte do país

Ricardo Meireles era fotógrafo de profissão quando herdou do pai uma propriedade em Santo Tirso, no norte de Portugal, onde começou por cultivar plantas aromáticas e medicinais. A insatisfação com o modelo convencional levou-o a descobrir a agrofloresta de sucessão através de Ernst Götsch, numa formação na Herdade do Freixo do Meio. O que começou como curiosidade tornou-se missão: criar uma das primeiras agroflorestas de sucessão do país.

Num espaço de 5.000 metros quadrados, a Estação Agroflorestal da Manguela tem hoje mais de 60 espécies a produzir: citrinos como limoeiros e laranjeiras, nogueiras, macieiras da variedade “porta da loja”, hortícolas, ervas aromáticas e até eucaliptos — sim, eucaliptos, plantados de forma consciente e integrada, não em monocultura. O princípio da sucessão implica que cada planta prepara o solo para a seguinte, criando um sistema que se auto-fertiliza e se torna cada vez mais produtivo ao longo do tempo.

Ricardo transformou a Manguela num centro de divulgação e formação em agricultura regenerativa, ligando-se a um coletivo de produtores chamado “Somos Agrofloresta” que abastece a comunidade local. A escala é pequena, mas o impacto é desproporcional: funciona como demonstração viva de que a agrofloresta de sucessão é viável no clima atlântico do norte de Portugal, não apenas nos trópicos ou no Mediterrânico.

Os princípios que unem estes cinco projetos

Apesar de operarem em regiões, escalas e setores muito diferentes, todos estes projetos partilham um conjunto de princípios comuns que definem a agricultura regenerativa como prática. Não são regras rígidas, mas sim diretrizes que orientam as decisões diárias do agricultor e que, em conjunto, criam um sistema mais resiliente.

  1. Minimizar a perturbação do solo — reduzir ou eliminar a lavoura, preservando a estrutura, a microbiologia e a matéria orgânica que já existe.
  2. Manter o solo sempre coberto — através de coberturas mortas ou culturas de cobertura vivas, evitando a erosão e mantendo a humidade.
  3. Maximizar a diversidade de espécies — rotações, consociações, policulturas e integração de animais, imitando a complexidade dos ecossistemas naturais.
  4. Manter raízes vivas no solo durante o maior tempo possível — alimentando a microbiologia, melhorando a estrutura e capturando carbono.
  5. Integrar animais no sistema agrícola — pastoreio rotacional, estrume como fertilizante natural, controlo de infestantes sem herbicidas.

Estes cinco princípios não funcionam isoladamente. O seu poder está na combinação: um solo coberto e não perturbado, com raízes vivas e animais em rotação, torna-se rapidamente um ecossistema autossuficiente que precisa de menos inputs externos — menos fertilizantes, menos pesticidas, menos água de rega, menos combustível para maquinaria. É esta redução de custos que torna a agricultura regenerativa economicamente viável, mesmo quando os preços de mercado dos produtos não premium são baixos.

A questão da rentabilidade em números concretos

A pergunta que qualquer agricultor faz antes de considerar a transição para a regeneração é inevitável: isto paga-se? A resposta não é linear, porque depende do contexto, do tipo de produção, do mercado e do tempo de transição. Mas os dados disponíveis — tanto de estudos académicos como da experiência real dos projetos portugueses — apontam numa direção clara.

Para perceber como a rentabilidade se distribui entre os cinco projetos, vale a pena comparar indicadores económicos e ecológicos de cada um.

Projeto Região Área Produção principal Matéria orgânica do solo Fontes de receita
Monte Silveira Bio Beira Baixa ~1.000 ha Gado,Montado,cereais 0,7% → >5% Marca própria + créditos carbono
Herdade de São Luís Alentejo ~700 ha Porco preto,gado Em aumento (sem valor divulgado) Venda direta + premium biológico
Terra Sintrópica Mértola Várias parcelas Hortícolas,fruta Em recuperação Rede alimentar local + formação
Herdade dos Coelheiros Arraiolos ~800 ha Vinho,nozes,montado Em regeneração desde 2015 Vinhos premium + enoturismo
Quinta da Manguela Santo Tirso ~0,5 ha Citrinos,hortícolas Em aumento progressivo Cesto semanal + formação

O que estes números revelam é que não há um único modelo de rentabilidade. Monte Silveira encontrou nos créditos de carbono e na marca própria uma forma de valorizar o que antes vendia a granel por pouco dinheiro. A Herdade de São Luís reduziu a dependência de ração externa, baixando drasticamente os custos de produção. A Herdade dos Coelheiros posicionou-se no segmento de vinhos premium, onde o consumidor paga pela história e pela autenticidade do terroir. A Quinta da Manguela criou um modelo de cesto semanal que vende diretamente à comunidade, eliminando intermediários. A Terra Sintrópica construiu uma economia circular local onde cada elo — agricultor, consumidor, escola, município — tem um papel.

O fator comum é a redução de inputs: menos fertilizantes, menos ração comprada, menos combustível, menos produtos veterinários. Um estudo da Ecdysis Foundation citado em 2018 encontrou que agricultores regenerativos eram cerca de 80% mais rentáveis do que os convencionais, não porque produziam mais, mas porque gastavam muito menos. Esta é a chave económica da regeneração: a rentabilidade não vem necessariamente de produzir mais, mas de gastar menos para produzir o mesmo ou melhor.

O papel dos mercados e do consumidor

Nenhum destes projetos sobrevive num vácuo. O que torna a agricultura regenerativa economicamente viável em Portugal é a existência, cada vez mais sólida, de mercados que valorizam a diferença. O programa ZERYARegenerativa, desenvolvido em parceria com o Continente através do Clube de Produtores, envolve 20 produtores e 2.300 hectares, com resultados que mostram uma redução média de 55% no uso de pesticidas e um aumento generalizado da matéria orgânica do solo. Estes produtos — maçã de Alcobaça IGP, pera rocha, batata-doce de polpa laranja — já estão nas prateleiras dos supermercados, o que significa que a regeneração deixou de ser uma conversa de nicho.

O programa do Continente é talvez o exemplo mais claro de como a grande distribuição pode catalisar a transição. Ao garantir compra e preços diferenciados para produtos regenerativos, cria um incentivo económico direto para que mais agricultores façam a transição. E ao exigir auditorias independentes e dados verificáveis, garante que a palavra “regenerativo” não se dilui em greenwashing.

Para além da grande distribuição, há outros canais a funcionar. A venda direta em mercados locais e plataformas de cestos semanais, o enoturismo na Herdade dos Coelheiros, a loja do Freixo do Meio no Mercado da Ribeira em Lisboa, as formações pagas na Quinta da Manguela — todos são exemplos de que a diversificação de canais de venda é parte integral do modelo de negócio regenerativo.

Os desafios que ainda dificultam a transição

Nem tudo é simples. A transição da agricultura convencional para a regenerativa implica um período — geralmente de três a cinco anos — em que os custos podem aumentar e as receitas podem baixar, antes de o sistema atingir o novo equilíbrio. Durante esse tempo, o agricultor precisa de apoio técnico, capital de transição e paciência. Em Portugal, não existem ainda políticas públicas específicas que incentivem a transição para a regeneração, embora a Política Agrícola Comum (PAC) 2023-2027 inclua medidas agroambientais que podem ser utilizadas para financiar práticas regenerativas.

Os principais obstáculos que um agricultor português enfrenta ao iniciar esta transição incluem:

  • Período de conversão com quebra de rendimentos, especialmente nos primeiros anos em que o solo ainda está a recuperar e as práticas ainda não estão otimizadas.
  • Falta de conhecimento técnico especializado, uma vez que a agricultura regenerativa exige competências que não fazem parte da formação agrícola tradicional em Portugal.
  • Ausência de incentivos públicos direcionados, ao contrário do que acontece noutros países europeus com programas específicos de apoio à regeneração de solos.
  • Dificuldade de acesso a sementes e plantas adaptadas, particularmente em regiões semi-áridas como o Alentejo, onde a Terra Sintrópica teve de criar o seu próprio viveiro para colmatar esta lacuna.
  • Mercado ainda em desenvolvimento, com consumidores que nem sempre estão dispostos a pagar o preço que a produção regenerativa justifica.
  • Resistência cultural do setor, dominado por uma lógica de produtividade a curto prazo que dificilmente aceita práticas que exigem pensar em ciclos de cinco, dez ou vinte anos.

Apesar destes obstáculos, o movimento está a ganhar momentum. O fórum REGENERA IBERIA, realizado em 2026 em Córdova, reuniu os principais atores ibéricos da agricultura regenerativa. A Rede Ibérica de Territórios Regenerativos cresce ano após ano. Projetos como o TRAILS4SOIL, financiado pelo Horizon Europe, estão a criar Living Labs em Portugal e Espanha para co-criar soluções de saúde do solo adaptadas a diferentes sistemas agrícolas. E a próxima PAC 2028-2035, apesar das incertezas, deverá incluir instrumentos mais alinhados com a regeneração, pressionada pelo Pacto Ecológico Europeu e pela necessidade de cumprir metas de sequestro de carbono agrícola.

O caminho que está a ser trilhado

Os cinco projetos que se destacam em Portugal em 2026 não são casos isolados nem experiências de laboratório. São explorações reais, com contas a fechar, famílias a sustentar e solos a melhorar ano após ano. Provam que a agricultura regenerativa não é um luxo para quem pode esperar, mas uma estratégia de sobrevivência para quem precisa de produzir mais com menos — menos água, menos fertilizantes, menos máquinas, menos subsídios. A questão deixou de ser se funciona. A questão é quantos mais agricultores terão a coragem e o apoio para fazer a transição.